Posted by: Marcela Bonazzi | August 29, 2010

Experiência de Quase Morte

É normal encontrar a frase “Sinto que renasci” ao ler uma matéria que conte a história de uma pessoa que passou por uma experiência de quase morte. Apesar de não concordar com o termo – quase morte não devia existir, ou é morte ou não é – não é isso que vem ao caso agora. O que realmente importa agora é o fato de eu já ter passado por essa situação.

Não me lembro exatamente quantos anos tinha, mas estava no começo da adolescência, aquela época em que você quer ser criança, mas se acha adulto o bastante para fazer o que quiser. Apesar da reclamação de muitas mães, eu sempre fui uma menina muito calma, quase nunca dei trabalho para meus pais. A não ser no dia 30 de dezembro daquele ano.

Me lembro de estar na piscina do prédio com alguns amigos e com a minha prima quando ouvi as crianças menores gritando. Tudo por que uma abelha, esse inseto tão pequeno, tinha caído no lado raso da água. Meus instintos maternos, sempre muito presentes em mim desde pequena, se ativaram e eu logo pedi que elas saíssem da piscina para que a água parasse de se agitar e eu pudesse tirar a abelha de lá. Foi aí que a confusão começou.

Fiz uma concha com a mão para recolher a abelha junto com um pouco de água para que ela não tentasse me picar. Não adiantou. De algum jeito ela conseguiu me enrolar e logo senti uma pontada e percebi seu ferrão na ponta do meu dedo mindinho. Fiquei brava, mas como a abelha já estava morta e fora da piscina à essa altura me senti vingada o bastante. Pedi que minha prima ficasse por ali enquanto eu subia para colocar um pouco de álcool no dedo.

No elevador eu me sentia brava, preferia mil vezes estar na piscina. Chegando em casa fui até o banheiro, onde minha mãe estava de moletom e camiseta furada lavando o banheiro. Expliquei o ocorrido e ela pediu que eu fosse colocar álcool, reiterando que tudo estava bem. Fiz como ela mandou e fui chamar o elevador para descer e brincar. Aí a história começa a ficar meio nublada em minha memória.

Lembro de ficar tonta e voltar para casa. Chamei minha mãe, disse que não me sentia bem. Ela olhou para mim, arregalou os olhos, pediu que eu levantasse a camiseta. Fiz como ela mandou e quando olhei para minha barriga comecei a chorar: estava repleta de pequenas bolinhas vermelhas, como se diversas abelhas tivessem picado meu corpo todo. Lembro do meu irmão me dizer que aquilo não era nada, que eu devia ficar calma, tudo isso enquanto minha mãe se trocava com a maior rapidez que já vi na vida.

Depois disso lembro do hospital. Luzes fortes, uns três médicos. Minha mãe debruçada em mim para que eu não visse o soro sendo colocado em minha mão, afirmando com cara de medo que tudo ficaria bem. Me sentia estranha, mas não sabia explicar. Hoje já sei dizer exatamente o que aconteceu: eu tive um choque anafilático.

Um choque anafilático é uma reação alérgica que obstrui suas vias aéreas e pode ser mortal se não tratada a tempo. Lembro do médico dizer que se minha mãe demorasse mais cinco minutos para me resgatar eu provavelmente não estaria mais lá. Hoje, quando paro para pensar nisso vejo o risco que corri. Mas, ao contrário de muitos sobreviventes, não acho que tenha nascido de novo.

Tive alta do hospital depois de passar a noite em observação. Cheguei em casa acompanhada pela minha tia no dia 31 de dezembro – no tempo certo para me arrumar para a festa de final de ano. Comecei aquele próximo ano com apenas uma coisa diferente dentro de mim, que continua firme e forte até hoje: um grande medo de abelhas.

*Escrevi esse texto para a aula de Criação de Texto, achei legal postar aqui também. Sempre que rolar alguma coisa legal por ali vou trazer para cá. Visitem, aliás, o blog em que colocamos todos os textos que produzimos em sala! É o Novas Histórias e tem muita coisa bacana por lá!


Responses

  1. Eita…. Ainda bem que sua mãe correu com você… Hstória legal Mah, gostei de ler! Bjs e cuidado com as abelhas!


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